21.09.2011 | Texto por
Ilustração
Falta de atenção
e foco virou doença. O nome? Transtorno de déficit de atenção com
hiperatividade. A suposta solução? O remédio tarja preta, do qual o Brasil é o
segundo maior consumidor do mundo. Psiquiatras culpam o cérebro; outros, a
sociedade. Nosso repórter ouviu os dois lados e passou uma semana sob o efeito
da “droga da obediência”
LUCONG/ Gallery Henoch, NY
“Bom, é o seguinte: você tem sinais de déficit de atenção e de ansiedade. Vou te prescrever um medicamento”, sentenciou o psiquiatra. O gravador escondido no bolso marcava exatos 23 min de consulta – tempo suficiente para ele me diagnosticar com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) e escorregar pela mesa uma receita para três caixas de Ritalina. Não precisei mentir nem exagerar nada. Em resumo, relatei que vez ou outra tenho dificuldade para me concentrar em coisas que não me interessam, que prazos podem ser um problema e que faz tempo que não leio um livro até o fim. O que foi? Se identificou com alguma coisa?
Não se preocupe. Segundo a Organização Mundial
de Saúde (OMS) e a Associação Americana de Psiquiatria, cerca de 4% dos adultos
e de 5% a 8 % de crianças e adolescentes de todo o mundo sofrem de TDAH,
“uma síndrome caracterizada por desatenção, hiperatividade e impulsividade”,
atigamente chamada apenas de DDA (déficit de atenção). Em uma sala de aula com
40 crianças, por exemplo, estima-se que pelo menos dois sejam portadores. E
cada vez mais o destino delas é o mesmo que o meu: o consultório de um
psiquiatra.
Grande parte da psiquiatria vê o TDAH como uma
doença neurobiológica, causada por um desequilíbrio químico no cérebro, tal qual
a depressão. O diagnóstico é feito a partir de entrevistas, isto é, não há
exames que detectem a doença. Seus “defensores”, por assim dizer, afirmam
existir mais de 10 mil estudos relatando seus sintomas, os primeiros datando
dos anos 1700.
Todavia, isso são hipóteses, teorias. Muitos
profissionais, especialmente de outros ramos da medicina, questionam a causa, o
diagnóstico, o tratamento com remédios e a utilização do transtorno como
justificativa para desempenhos fracos na escola. Alguns, mais radicais, duvidam
até da própria existência do TDAH.
Muitos profissionais questionam a causa, o
diagnóstico, o tratamento com remédios e a utilização do transtorno como
justificativa para desempenhos fracos na escola
Mesmo assim, resolvi seguir as recomendações do
meu médico. Durante uma semana, vivi sob o efeito do remédio tarja preta (leia
o diário no fim do texto), apelidado por seus críticos de “droga da
obediência”. Nem a Novartis, laboratório fabricante, nem a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (anvisa) revelam os números de vendas. Mas previsões do
Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (Idum) dizem que,
em tese, nos últimos 11 anos, elas galoparam cerca de 3.200%. O número coloca o
Brasil como o segundo maior consumidor de Ritalina do mundo, perdendo apenas
para os Estados Unidos.
A pesquisa não contempla o mercado negro, que,
ao que parece, é bem movimentado. Bastou meia hora no Google para encontrar
diversos anúncios de gente oferecendo o remédio “off label” (sem receita). Por
telefone, acordei de encontrar um vendedor em uma estação de metrô na manhã do
dia seguinte. Chegando lá, um motoboy me entregou em mãos um envelope pardo e
pediu que eu conferisse o conteúdo: Ritalina 10 mg, 20 comprimidos, lacrada e
dentro da validade. Valor: R$ 80. Nas farmácias, sai em média por um quarto do
preço. Relativamente barata, fácil de conseguir e teoricamente segura, a “Rita”
vem sendo usada também por estudantes e baladeiros que querem bombar a energia
e espantar o sono. A moda teria surgido em clubs e colleges norte-americanos.
O efeito de cada drágea de cloridrato de
metilfenidato, nome verdadeiro da Ritalina, dura em média quatro horas. Assim
como outras “inas” – a cocaína, a cafeína e as anfetaminas –, ela é considerada
um psicoestimulante. Seu mecanismo de ação ainda não foi completamente
elucidado. Mas acredita-se que ela aumenta a produção e o reaproveitamento da
dopamina e da noradrenalina, neurotransmissores associados às sensações de
prazer, excitação e ao estado de alerta do sistema nervoso. A bula alerta para
a dependência física ou psíquica, além de elencar uma série de reações adversas
como nervosismo, dificuldade em adormecer, diminuição no apetite, dor de
cabeça, palpitações, boca seca e alterações cutâneas.
No FDA, órgão governamental dos Estados Unidos
responsável por controlar alimentos e medicamentos, há 186 registros de óbito
citando o uso prolongado do metilfenidato. Um dos nomes é o do jovem Matthew
Smith – falecido aos 14 anos, metade deles fazendo uso da substância. Seus pais
fundaram o Ritalindeath.com
com a missão de “prover informações sobre a verdade oculta do TDAH e das drogas
usadas em seu tratamento”.
LUCONG/ Gallery Henoch, NY
Laboratórios é que bancam
O site da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) é o primeiro que aparece quando se faz uma busca virtual sobre TDAH. Nele há o cadastro de médicos do país todo especialistas no assunto, onde encontrei o contato do psiquiatra que me atendeu. A associação, fundada pelo doutor Paulo Mattos e um paciente em 1999, também realiza eventos para divulgar a causa e oferece cursos de treinamento para professores.
O site da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) é o primeiro que aparece quando se faz uma busca virtual sobre TDAH. Nele há o cadastro de médicos do país todo especialistas no assunto, onde encontrei o contato do psiquiatra que me atendeu. A associação, fundada pelo doutor Paulo Mattos e um paciente em 1999, também realiza eventos para divulgar a causa e oferece cursos de treinamento para professores.
A entidade é patrocinada pelos laboratórios que
fabricam, segundo o site, “os remédios de primeira linha para o tratamento de
TDAH”. São eles: Novartis, produtora da Ritalina e da Ritalina LA (mesma
substância, mas com dosagens mais altas); Janssen Cilag, do sugestivo Concerta;
e Shire, do recém-lançado Vevanse. “Ninguém recebe salário, exceto a
secretária. Por isso precisamos de incentivos privados. Não há conflito de
interesse, desde que, claro, você apresente a situação para as outras pessoas”,
explica o doutor Paulo Mattos.
No ano passado, a Novartis e a ABDA promoveram
em parceria o concurso “Atenção Professor”, com o objetivo de “ajudar os
educadores a conhecer e lidar melhor com o TDAH”. Ganhavam as três escolas que
apresentassem as melhores propostas de inclusão de portadores na sala de aula.
Como prêmio, R$ 7 mil em dinheiro e uma garrafa de champanhe. Recentemente, um
projeto de lei institucionalizando o diagnóstico e o tratamento de TDAH nas
escolas foi aprovado no Senado, restando apenas três comissões para que a
aprovação se repita na câmara dos deputados.
“Nenhum medicamento no mundo daria conta da
complexidade que é o processo de atenção e aprendizado de uma criança”
“Ciência não se discute”
A psicóloga Iane Kestelman, atual presidente da ABDA, descobriu a organização quando seu filho, “sumariamente reprovado em todas as matérias na escola”, foi diagnosticado com o transtorno. “Nossa vida mudou, e para melhor. Meu filho iniciou o tratamento e passou na melhor faculdade de economia do país. Ele toma remédio há 12 anos e não virou nenhum robô, como dizem por aí”, ela conta, a voz embargada do outro lado do telefone. Orgulhosa do caso de sucesso na família, ela relativiza a epidemia do TDAH e o boom nas vendas da Ritalina: “É um bom sinal. Significa que estamos cumprindo nosso papel, que mais gente está conhecendo a doença e o tratamento adequado”.
A psicóloga Iane Kestelman, atual presidente da ABDA, descobriu a organização quando seu filho, “sumariamente reprovado em todas as matérias na escola”, foi diagnosticado com o transtorno. “Nossa vida mudou, e para melhor. Meu filho iniciou o tratamento e passou na melhor faculdade de economia do país. Ele toma remédio há 12 anos e não virou nenhum robô, como dizem por aí”, ela conta, a voz embargada do outro lado do telefone. Orgulhosa do caso de sucesso na família, ela relativiza a epidemia do TDAH e o boom nas vendas da Ritalina: “É um bom sinal. Significa que estamos cumprindo nosso papel, que mais gente está conhecendo a doença e o tratamento adequado”.
De acordo com uma pesquisa recente realizada por
USP, Unicamp e Albert Einstein College of Medicine quase 75% dos jovens
brasileiros que utilizam Ritalina ou similares não foram diagnosticados
corretamente. Iane e doutor Paulo Mattos, porém, furtam-se a discutir uma
possível fragilidade e/ou subjetividade no diagnóstico da doença. “Achamos isso
ofensivo, inclusive. Ciência não se discute. Ela não está preocupada se você
concorda com ela ou não”, diz a psicóloga. “Isso é um pseudodebate. Quem duvida
da existência do TDAH nunca publicou nenhum artigo sobre o assunto, não tem
qualificação. Você não vai chamar um pajé para discutir com um neurocientista”,
engrossa o coro seu colega.
“TDAH não existe”
Marilene Proença não é um pajé. É psicóloga, integrante do Instituto de Psicologia da USP, e opõe-se à razão de ser da ABDA. “TDAH não existe. O que existe são crianças diferentes, com formas de aprender diferentes. Algumas são mais focadas, outras mais dispersas. Não existe um padrão de aprendizado”, ela postula. Para Marilene, a solução não cabe em um comprimido branco de pouco mais de 1 cm de diâmetro: “Nenhum medicamento no mundo daria conta da complexidade que é o processo de atenção e aprendizado de uma criança. Ele envolve afetividade, desejo, representações que a criança cria”.
Marilene Proença não é um pajé. É psicóloga, integrante do Instituto de Psicologia da USP, e opõe-se à razão de ser da ABDA. “TDAH não existe. O que existe são crianças diferentes, com formas de aprender diferentes. Algumas são mais focadas, outras mais dispersas. Não existe um padrão de aprendizado”, ela postula. Para Marilene, a solução não cabe em um comprimido branco de pouco mais de 1 cm de diâmetro: “Nenhum medicamento no mundo daria conta da complexidade que é o processo de atenção e aprendizado de uma criança. Ele envolve afetividade, desejo, representações que a criança cria”.
Para os pais aflitos, que não sabem o que fazer
com seu filhos travessos, ela acena um caminho, antes que eles decidam passar a
bola para um psiquiatra: “A primeira coisa é ouvir a sua criança. O que ela tem
a dizer sobre a escola? Os amigos a tratam bem? O professor escuta ela? Mudar
para uma escola que entenda melhor a criança também deve ser levado em
consideração”.
O problema não estaria na cabeça das pessoas,
mas na sociedade. É o que acredita Maria Aparecida Moyses, pediatra e
professora da Unicamp: “Se tem tanta gente deprimida ou desatenta, temos que
entender que elas estão sendo produzidas pelo modo que a gente vive. Nunca se
tomou tanto remédio e nunca houve tantas pessoas doentes. Isso não pode estar
certo. O que eles fazem é uma biologia de um corpo morto, de um cérebro sem
vida, sem afeto, isolado do meio em que vive”.
Atendendo em um centro de saúde público em
Campinas, ela diz já ter presenciado casos de jovens viciados no metilfenidato,
que clamavam pela sua dose diária durante as férias, quando normalmente a
posologia é suspendida. Pergunto então se ela daria Ritalina para um filho seu.
“Sou contra”, ela retruca. “Ficar parado é, na verdade, uma reação adversa dos
estimulantes. Focar atenção é sinal de toxicidade, não é efeito terapêutico.”
Mas então o que você daria para ele? “Ritalina nem pensar. Daria... Rita Lee.”
Doente, eu?
Pela
primeira vez na vida, nosso repórter visitou um psiquiatra. A razão:
averiguar o surto nos diagnósticos de TDAH. Para sua surpresa, deixou o
consultório com uma receita para três caixas de Ritalina 10 mg. Na dúvida,
resolveu acatar o doutor – mesmo que apenas por uma semana
Quarta-feira
Tomo o primeiro comprimido às 10h30. Meia hora depois, sinto um anestesiamento sutil, como se uma película me separasse do entorno. Enquanto preparo a quentinha que levarei para almoçar, meu pai fala sobre uma passeata pró-Amazônia. Tenho que parar mais de uma vez para entendê-lo, como se não conseguisse fazer duas coisas ao mesmo tempo. Sinto uma pressão na cabeça. Assim que ponho os pés na rua, percebo que esqueci a quentinha. A caminhada do ponto de ônibus até a redação, coisa de 5 min, me dá uma sede surreal. Ninguém nota nada de diferente em mim.
Quinta-feira
Acordei várias vezes durante a noite, algo incomum para mim. Sonhei que estava na escola e que entregava uma prova de matemática em branco. Desperto com uma espinha na testa e uma enxaqueca fortíssima, que dura até a hora em que tomo o comprimido do dia. Não percebo nenhum upgrade na atenção, mas meus editores se espantam quando entrego um texto de duas páginas ainda no meio do dia – nenhum recorde, mas sem dúvida um episódio inédito na minha carreira. Relendo- o, porém, não gosto tanto do resultado. Não lembro da última vez que bocejei, mesmo sem tomar um gole de café há dois dias.
Sexta-feira
Hoje o negócio bateu de verdade. Sinto o maxilar travado. Estou ansioso. E a pressão na cabeça voltou. Tomar banho, esperar o elevador, pegar o ônibus e demais atos corriqueiros parecem mais enfadonhos que o normal. Estranhamente, fico doido para chegar à redação e trabalhar. Meu chefe diz que estou com uma cara estranha. De fato sinto os músculos da face meio paralisados, as expressões limitadas. Fico abespinhado sempre que algo ou alguém me interrompe. Sinto-me mais concentrado, mas percebo que só consigo focar uma coisa por vez.
Sábado
e domingo
Como o doutor disse que o medicamento só deveria ser ingerido quando a atenção fosse exigida e que ele não combina muito com os prazeres mundanos da vida, resolvo suspender o uso pelos dois dias.
Segunda-feira
Estou introspectivo. Sinto os mesmos efeitos colaterais de antes – pressão na cabeça, ansiedade, irritação –, porém mais fortes e acompanhados de uma sudorese nas mãos. O pensamento embaralhou, passo o dia todo escrevendo e deletando na mesma proporção. No fim do expediente, um saldo mísero de um parágrafo. Não sinto fome na hora do almoço – outro episódio inédito. Me forço a comer uma torta de frango, que deixo pela metade. Fico preocupado.
Terça-feira
Por conta do rendimento pífio de ontem, estou atrasado para escrever esta matéria. Dado o revertério do dia anterior, decido não arriscar e ficar clean por hoje. Doeu, mas consegui parir o texto. Concluo que, no meu caso, nada melhor do que um prazo e um editor à espreita para acertar o foco e fazer o que deve ser feito. |
Efeito zumbi
As imagens que ilustram esta matéria são de
autoria de Lu Cong (Cong Hua Lu), artista nascido em Xangai, na China, em 1978.
Formado em biologia e artes pela Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, ele
começou sua carreira como pintor sem quase nenhum treinamento formal anterior,
o que lhe rendeu um estilo bem particular. Críticos ressaltam seu olhar
clínico, capaz de produzir imagens que oscilam entre a beleza e o terror. Nesta
série, em que os limites entre fotografia e pintura são borrados, Lu Cong
retrata seres humanos assépticos, ostentando olhares ao mesmo tempo vidrados e
perdidos.
Vai lá: www.lucong.com
LUCONG/ Gallery Henoch, NY



0 comentários:
Postar um comentário