quinta-feira, 23 de julho de 2009

ÍNDICE DE HOMICÍDIOS NA ADOLESCÊNCIA


Pouco destaque na mídia teve a divulgação, nesta semana, do IHA – Índice de Homicídios na Adolescência.
O trabalho foi elaborado em parceria pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, UNICEF, Observatório de Favelas e o Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, no contexto do Programa de Redução da Violência Letal e consiste em um dos produtos do segundo eixo de ação do programa destinado produção de indicadores de monitoramento de vitimização de adolescentes por homicídio.
O IHA serve para estimar o risco de mortalidade por homicídio de adolescentes que residem em um determinado território. Foi criado com o propósito de exemplificar o impacto da violência letal de uma forma simples, sintética para ajudar na mobilização das pessoas para a gravidade do problema, além de monitorar o fenômeno no tempo e no espaço com o objetivo de mensurar o impacto das políticas públicas nesta área.
O IHA foi calculado apenas em municípios com mais de 100 mil habitantes. Os resultados indicam, em última instância, a quantidade de adolescentes com idade inicial de 12 anos que vão morrer vítimas de homicídios antes de completar 19 anos (em cada grupo de mil).
Para chegar a esses resultados, os pesquisadores utilizaram com fontes o Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde e os dados de população do IBGE.
O valor médio do IHA (nos municípios com mais de 100 mil habitantes) é de 2,03 adolescentes mortos por homicídio antes de completar os 19 anos, para cada grupo de 1000 adolescentes de 12 anos.
O estudo analisou o impacto relativo de diferentes dimensões como gênero e raça sobre o risco de morte por homicídio para os adolescentes. Apesar das conclusões do estudo serem esperadas, não deixa de causar impacto o fato de saber que, entre os adolescentes do sexo masculino, a probabilidade de ser vítima de homicídio é 12 vezes maior do que entre as de sexo feminino. No caso dos adolescentes negros, a probabilidade de ser vítima de homicídio é quase três vezes maior do que a dos adolescentes brancos.
O número de adolescentes assassinados por arma de fogo é 3,3 vezes superior ao das vítimas de outros meios, o que salienta a importância do controle de armamento dentro das políticas de redução da violência letal.

Ranking

Dos municípios pesquisados, aquele que apresentou o maior IHA foi o município paranaense de Foz de Iguaçu, com 9,7. As primeiras capitais a aparecerem na lista são Recife e Maceió, ambas com IHA 6,0. O município de São Paulo ocupa a 151º lugar entre 267 municípios pesquisados, com IHA 1,4.
O município de Guarulhos, com uma população de 177.652 de adolescentes (o maior número entre as cidades que não são capitais) apresenta um IHA de 2,31. Trata-se do 8º município de maior IHA no estado de São Paulo, atrás do Guarujá (2,94), Franco da Rocha (2,93), Almirante Tamandaré (2,90), Itapevi (2,83), Embu (2,76), Mauá (2,58) e Francisco Morato (2,35). Considerando todos os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, Guarulhos ocupa a 94ª posição. Em números absolutos, significa dizer que, em Guarulhos, 411 adolescentes vão morrer assassinados no período considerado, ou aproximadamente 59 adolescentes por ano.
No Brasil todo serão 33.504 vidas adolescentes subtraídas pela violência neste período (algo em torno de 4.786 mortes por ano), sendo que a maior parte será de homens, negros e vítimas de arma de fogo.
Apenas a título de comparação, até o presente momento a GRIPE A (H1N1) vitimou 29 pessoas em todo o país, número 96 vezes menor do que o de adolescentes que perderam a vida vítimas de homicídio no mesmo período.
Diante da gravidade da situação, a informação mereceria maior atenção de toda a sociedade, principalmente da imprensa.

BULLYING (3)


No mês de junho, em atividade com os alunos da 1ª série do colégio, apliquei um questionário utilizado por uma instituição britânica denominada kidscape (http://www.kidscape.org.uk/) para medir a intensidade da prática de bullying em instituições de ensino britânicas e, com isso, orientar as ações dos profissionais de educação e saúde.
A atividade insere-se numa proposta de investigação da violência em todas as suas dimensões sociais, em um projeto de trabalho denominado Caleidoscópio, utilizando para isso, além de reportagens e textos científicos, as produções cinematográficas (dramas e documentários históricos).
Foram entrevistados 103 alunos das 1as e 2as séries do Ensino Médio e, da tabulação dos dados, apresento a síntese a seguir:
43,8% afirmam ter sofrido algum tipo de agressão em ambiente escolar, dos quais 58,7% são do sexo masculino e 41,3% do sexo feminino.
Considerando os tipos de agressão sofridas, 45,6% relatam que sofreram agressão verbal (apelidar, xingar), enquanto 30,5% sofreram algum tipo de constrangimento emocional (difamar, ameaçar, quebrar ou esconder pertences) e 23,9% foram vítimas de agressão física.
17% das agressões aconteceram quando os alunos tinham entre 5 e 11 anos, enquanto 54,4 foram vítimas entre os 11 e os 14 anos e 28% após os 14 anos. A informação deve ser vista com ressalvas, visto que a maioria dos alunos entrevistados situava-se na faixa de 13 e 16 anos.
A prática do bullying não foi reincidente para 34,7% dos entrevistados (foram vítimas da agressão de colegas apenas uma vez), enquanto para 63% a prática ocorreu mais de uma vez. Em 2,3% dos casos, a prática do bullying é recorrente várias vezes ao dia.
A sala de aula é o local onde a prática de bullying ocorre com maior frequência para os entrevistados (43,5%), seguida do pátio escolar, com 32,6% dos casos. Para 6,5% dos alunos entrevistados, esta situação ocorreu no percurso entre a casa e a escola, enquanto 17,4% apontaram outros locais.
Quase 1/3 dos alunos que se dizem vítimas de algum abuso por parte dos colegas afirmaram, na pesquisa, não terem se incomodado com a situação. 52,2% afirmaram, no entanto, que se sentiram muito mal com a situação. Declararam ter ficado com medo, nervosos ou com vontade de mudar de escola 15,2% dos entrevistados.
Quando perguntados sobre quem são os responsáveis pela prática de bullying, 40,8% apontam o agressor como principal culpado. Para 28,1% dos entrevistados, os pais dos agressores devem ser responsabilizados pelos atos de agressão dos filhos. Os alunos que assistem às práticas de agressão e nada fazem foram apontados como culpados por 11,7% dos entrevistados. Para 15,4% dos entrevistados, é a própria vítima a principal responsável pela prática de bullying, na medida em que, tendo a possibilidade de utilizar os canais existentes para denunciar a agressão, nada fazem, o que estimularia o agressor a continuar agindo. A direção da escola e os professores foram apontados como culpados por 4% dos entrevistados.
Do total de entrevistados, 29,5% dos alunos afirmaram ter praticado algum tipo de violência contra algum colega de escola. Destes, 77,5%, além de agressores, também assumiram a condição de vítima.
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Apesar de tratar-se apenas de um “exercício” escolar, a pesquisa oferece algumas pistas para orientar as intervenções futuras do projeto e contribuir para eliminar a prática do bullying do contexto escolar.

sábado, 11 de julho de 2009

BULLYING (2)

Já está nas bancas de jornais o segundo número da revista EDUCAÇÃO SEM SEGREDOS, uma nova publicação sobre educação, da Editora IEMAR, de Minas Gerais.
Não conheço a referida editora, tampouco os profissionais envolvidos na publicação da revista. Encontrei-a na prateleira da banca de jornal e comprei-a, principalmente, por conta de umas das matérias em destaque na capa, sobre violência nas escolas, tema que tem sido objeto de algumas leituras minhas nos últimos meses.
Em 16 páginas (20% do total da revista) os repórteres Sonia Zaguetto e Edvaldo Fernandes, discutem o tema da volência nas escolas com clareza e profundidade, apresentando a opinião de especialistas do calibre de Miriam Abramovay (autora do livro “Escola e Violência” e pesquisadora da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana- RITLA), Cléo Fante (pesquisadora do Centro Multiprofissional de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar – CEMEOBES) e Lauro Monteiro (médico e editor do portal Observatório da Infância).
Do conteúdo da reportagem, destaco e reproduzo parcialmente as informações referentes aos “sintomas” ou “sinais” de que os filhos possam estar envolvidos na prática de bullying, na condição de vítima ou como autores:

Sinais de que seu filho é vítima de bullying:
Apresenta, com frequência, desculpas para faltar às aulas, ou alega indisposições como dores de cabeça, de estômago, diarreias e vômitos antes de ir para a escola.
  • Pede para mudar de sala ou de escola, sem apresentar motivos convincentes.
  • Demonstra desmotivação com os estudos, queda de rendimento escolar e dificuldades de concentração e aprendizagem.
  • Volta da escola irritado ou triste, machucado, com as roupas ou materiais sujos ou danificados.
  • Apresenta-se contrariado, deprimido, aflito ou manifesta medo de voltar sozinho da escola.
  • Possui dificuldades de relacionar-se com os colegas e fazer amizades.
  • Vive isolado em seu mundo e não quer contato com outras pessoas que não sejam da sua família.

Sinais de que seu filho pratica bullying:

  • Apresenta distanciamento e falta de adaptação aos objetivos escolares.
  • Volta da escola com ar de superioridade, exteriorizando ou tentando impor sua autoridade sobre alguém.
  • Apresenta aspecto e/ou atitudes irritadiças, mostrando-se intolerante frente a qualquer situação ou aos diferentes aspectos das pessoas.
  • Costuma resolver seus problemas valendo-se da sua força física ou psicológica.
  • Apresenta atitude hostil, desafiante e agressiva com irmãos e pais, podendo chegar ao ponto de atemorizá-los, sem levar em conta a idade ou a diferença de força física.
  • Carrega objetos ou dinheiro sem explicar a origem.
  • Apresenta habilidade em escapar de “situações difíceis”.

Evidentemente, estes sinais devem ser vistos com cautela, pois suas ocorrências podem estar associadas a outros problemas que não o bullying. Mas são, com toda certeza, sinais de que alguma coisa está errada e exige nossos cuidados.

A propósito, a revista traz ainda reportagem de boa qualidade sobre educação inclusiva (matéria de capa), guarda compartilhada, educação musical entre outras, por apenas R$ 5,90. O site da revista citado na capa, infelizmente, encontra-se em manutenção.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Bullying (1)













Apesar do termo em inglês, o Bullying define um conjunto de atitudes agressivas de alunos de escolas públicas e privadas em todas as regiões do planeta. Não se trata de um fenômeno novo, visto que atitudes como colocar apelidos pejorativos, ofender, discriminar, excluir, isolar, ignorar, agredir, quebrar pertences, intimidar, perseguir, tiranizar, amedrontar, entre outras, fazem parte do cotidiano escolar há muito tempo.
É um fenômeno que, no entanto, nos últimos anos, tem recebido especial atenção de especialistas em psicologia, educação, direito e outras áreas de conhecimento. É tema, inclusive, de muitos filmes e documentários, produzidos em várias partes do mundo.
De acordo com a extinta Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA), há diferentes maneiras de envolvimento com o bullying no ambiente escolar: como alvos, como autores e como testemunhas. Em muitos casos, os alvos da prática de bullying também são autores de práticas discriminatórias, persecutórias e violentas contras colegas de escola.


Segundo a ABRAPIA,


Os autores são, comumente, indivíduos que têm pouca empatia. Frequentemente, pertencem a famílias desestruturadas, nas quais há pouco relacionamento afetivo entre seus membros. Seus pais exercem uma supervisão pobre sobre eles, toleram e oferecem como modelo para solucionar conflitos o comportamento agressivo ou explosivo. Admite-se que os que praticam o BULLYING têm grande probabilidade de se tornarem adultos com comportamentos anti-sociais e/ou violentos, podendo vir a adotar, inclusive, atitudes delinquentes ou criminosas.


Os alvos são pessoas ou grupos que são prejudicados ou que sofrem as consequências dos comportamentos de outros e que não dispõem de recursos, status ou habilidade para reagir ou fazer cessar os atos danosos contra si. São, geralmente, pouco sociáveis. Um forte sentimento de insegurança os impede de solicitar ajuda. São pessoas sem esperança quanto às possibilidades de se adequarem ao grupo. A baixa autoestima é agravada por intervenções críticas ou pela indiferença dos adultos sobre seu sofrimento. Alguns creem ser merecedores do que lhes é imposto. Têm poucos amigos, são passivos, quietos e não reagem efetivamente aos atos de agressividade sofridos. Muitos passam a ter baixo desempenho escolar, resistem ou recusam-se a ir para a escola, chegando a simular doenças. Trocam de colégio com frequência, ou abandonam os estudos. Em casos extremos, pode ocorrer a tentativa ou mesmo a prática do suicídio.


As testemunhas, representadas pela grande maioria dos alunos, convivem com a violência e se calam em razão do temor de se tornarem as "próximas vítimas". Apesar de não sofrerem as agressões diretamente, muitas delas podem se sentir incomodadas com o que veem e inseguras sobre o que fazer. Algumas reagem negativamente diante da violação de seu direito a aprender em um ambiente seguro, solidário e sem temores. Tudo isso pode influenciar negativamente sobre sua capacidade de progredir acadêmica e socialmente.


Cyberbullying


Com o advento da internet e com a propagação dos sites de relacionamento, os autores do bullying conquistaram uma poderosa ferramenta para potencializar os atos de agressão, humilhação, intimidação e outros tipos de abuso. A estas atitudes no ambiente virtual da internet dá-se o nome cyberbullying.
É importante ressaltar que os atos que definem o bullying, quando praticados no ambiente virtual da internet, produzem efeitos muito mais danosos àqueles que são alvos, em virtude da grande capacidade de propagação da informação e, consequentemente, da ampliação da situação de exposição.
Aqueles que praticam o cyberbullying acreditam que estão protegidos contra qualquer tipo de sanção, pois julgam que a rede de computadores confere anonimato aos seus atos. Como a imensa maioria dos que tem essa prática é menor de idade, são legalmente inimputáveis, mas as sanções recairão sobre a família ou sobre aqueles que detêm a responsabilidade por sua guarda. Não são poucos os casos de bullying virtual que terminam na delegacia de polícia.


O que fazer?


Dificilmente uma instituição de ensino pode considerar-se livre do problema e negá-lo é o primeiro passo para potencializar as consequências dessas atitudes para todos os envolvidos.
(Re)conhecer o problema, orientar, criar canais de comunicação eficientes, que estimulem os adolescentes a falar de seus problemas e manter vigilância permanente para impedir que estas situações de desrespeito se agravem e sejam recorrentes no ambiente escolar é o que se espera de uma instituição de ensino comprometida com a formação de indivíduos ajustados socialmente.


Onde obter informações a respeito?


Há muitos livros que tratam do assunto. Um dos mais conceituados é o livro “Bullying e Desrespeito: Como acabar com essa cultura na escola.”, de Beaudoin e Taylor, publicado pela Editora Artmed. (já citei esta bibliografia em outra postagem)
Além disso, o tema também é assunto de muitos filmes. Os melhores, no entanto, são difíceis de encontrar, tais como “Bang Bang, você morreu”, dirigido por Guy Ferland e lançado em 2002, ou “O silêncio de Melinda”, dirigido por Jessica Sharzer e lançado em 2004. O documentário "Olhos Azuis", da professora e socióloga norte-americana Jane Elliott, apesar de tratar das consequências da discriminação racial, também é importante para discutir a questão
O site do Observatório da Infância (http://www.observatoriodainfancia.com.br/) também apresenta um conjunto de informações importantes sobre o assunto.