quarta-feira, 17 de junho de 2009

SLEEP 2009

Vale a pena ler a íntegra da matéria publicada na Revista Carta Capital desta semana (no. 550, de 17 de junho) sobre o Encontro Anual das Sociedades Profissionais que estudam o sono e suas doenças, o Sleep 2009, ocorrido entre os dias 6 e 11 de junho, nos Estados Unidos.

Pesquisas recentes, publicadas no referido encontro, dão conta da importância do sono para um melhor aproveitamento no trabalho e nos estudos e para uma melhor qualidade de vida.

Em pesquisa realizada com jovens, o Doutor James Gangswisch, da Universidade de Colúmbia, conclui que adolescentes que ficam acordados até a meia-noite ou mais, apresentam risco 25% maior de sofrer depressão e 20% mais chances de ter pensamentos suicidas.

Outro estudo, apresentado por Jennifer Peszka, derruba a tese de que as noites mal dormidas para estudar são recompensadas pelos bons resultados acadêmicos. De acordo com a pesquisa realizada pela autora do estudo, as piores notas obtidas em vestibulares e na escola são dos alunos que preferem passar a noite acordados para estudar.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Violência nas escolas

Leitura 1:

Li na revista Veja desta semana (edição 2117) uma matéria sobre a violência nas escolas, apresentando depoimentos de professores que foram vítimas de agressão e ameaças e as maneiras como lidaram com a situação.
Segundo dados divulgados na revista, quase metade dos professores admite que o maior problema enfrentada em sala de aula está relacionado às dificuldades em conter os atos de indisciplina e despertar o interesse dos alunos. Ainda segundo a pesquisa que serve de referência para a matéria (figura ao lado), um em cada dez professores chegaram a ser agredidos fisicamente no exercício da função.
Ela revela, também, outro dado estarrecedor: 52% dos professores admitem atitudes agressivas com os estudantes, tendo sido irônicos ou rudes.
Neste contexto generalizado de violência, a matéria da VEJA, em seu título, sugere que “ensinar é uma guerra”.
Que alternativas se apresentam para resolver o problema da violência nas escolas (entre alunos e professores, entre alunos e alunos e aquelas que envolvem outros membros da comunidade)?

Leitura 2:

Neste final de semana, também, aproveitei a oportunidade do feriado prolongado para reler o livro “Bullying e Desrespeito, de Marie-Nathakue Beaudoin e Maureen Taylor, publicado pela ARTMED. Logo no início, há uma história interessante, que descrevo a seguir:
A história da Rã e uma mudança de perspectiva

Numa manhã ensolarada, uma grande rã decidiu engolir toda a água que havia na Terra. Sentou-se orgulhosa, saciada. Parecia uma montanha de água, e a pele azul e verde ficara quase que transparente sob a tensão. DE tão pesada, nem conseguia se mexer. Por isso, ficou apenas ali sentada, olhando para todos os animais e os seres humanos reunidos à sua frente. “O que fazer?!”, gritaram todos os seres vivos. “Vamos todos morrer se ela não devolver os rios, os córregos e os oceanos”. Passaram três dias rezando e implorando para que a rã soltasse as águas. Mas a rã nem se mexia. AS crianças choravam, os idosos sofriam, e, no horizonte, a areia do deserto avançava lentamente. Era preciso fazer alguma coisa.

Que alternativas se apresentam para resolver o problema imposto pela situação?

Para muitos de nós, a solução encontrada envolve agressão e ação individual, tais como bater na rã, empurrá-la, cortá-la ou dar tiros no animal.
A leitura do referido livro nos revela que as opções que temos para resolver determinados problemas são limitadas, em grande medida, pela nossa própria cultura, de tal forma que não conseguimos sequer pensar em outras soluções.
Pessoas de diferentes culturas, vivendo em diferentes contextos, poderiam, para o problema apresentado, apresentar soluções diferentes e, para confirmar tal tese, as autoras apresentam outro final para a história, sugerido por habitantes de ilhas do Pacífico Sul, onde a história é contada:


Em busca de uma solução, os animais e os seres humanos realizaram uma convenção. Um deles finalmente propôs organizar uma festa, na qual cada um deles experimentou sua careta mais idiota, sua dança mais engraçada e seus saltos mais criativos. A rã, ainda que obviamente interessada, simplesmente não se mexia. Por fim , uma cobrinha que até o momento mantivera-se bastante quieta nessa jornada, começou a se revirar de um lado para o outro, como se um ser imaginário estivesse fazendo-lhe cócegas. Primeiro a rã soluçou, tentou recuperar a compostura, mas, incapaz de controlar sua risadinha, explodiu em uma gargalhada que acabou expulsando todas as águas de dentro de sua boca gigante, reabastecendo a Terra e os seres vivos com seus oceanos, córregos e rios.

Pensar em alternativas para a as situações de violência nas escolas, como as apresentadas na matéria da revista Veja implica em repensar a própria cultura em que estamos inseridos e a maneira como ela limita nossas opções. Ou seja, é ir além das obviedades ditadas, muitas vezes, pelos articulistas/economistas/jornalistas da revista Veja, para quem todos aqueles que ousam pensar diferente (ou simplesmente pensar), como Paulo Freire, por exemplo, são considerados "arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental"

quarta-feira, 10 de junho de 2009


Há textos que nos prendem a atenção desde as primeiras linhas, e não nos libertam até que cheguemos ao seu final. Com alguns textos, criamos uma identificação tão grande que nos deixa, inclusive, um certo sentimento de inveja por não ter tido a competência para escrever, de forma tão bela, algo que defende princípios e ideias que comungamos. O texto abaixo é um desses exemplos que gostaria de compartilhar:

Coragem para pensar

Neste mês de junho de 2009 lembramos os 20 anos de falecimento do paranaense Paulo Leminski (1944-1989), um dos mais ousados escritores brasileiros do século passado. Bastaria mencionar o livro Catatau, de 1975, texto vertiginoso com frases lancinantes, experimentação contínua da linguagem. Numa passagem, Leminski recomenda ao leitor: "repara bem no que não digo". Trata-se de um romance que não tem nada a contar, mas muito tem a sugerir entre o saber e o signo.
O saber que não está dito, na literatura, pertence ao leitor criar e dizer, é convite a que entre em ação. Somos nós, leitores, convidados a pensar além da conta, além das linhas, além do óbvio, além do prescrito. Quanto mais corajoso for o escritor, mais coragem nos será exigida. Se Leminski testava a literatura em seus limites, cabe também ao leitor, com igual empenho, testar a sua capacidade de interpretar o dito e o não dito. Ler Paulo Leminski é, portanto, exercício de crescimento e superação. No poema "Erra uma vez", de La vie en close (1991), livro póstumo, o poeta declarou:

nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez

Para além do trocadilho, o artista da palavra encara o erro como elemento do jogo verbal. Por isso não teme duplicar o "r", errar mais de uma vez. Por isso brinca com o erro e nele se inspira. Porque somente o erro tem vez. Não teme repetir o erro até que vejamos a importância do fazer e do descobrir. A certeza de que errar é humano deixa de ser uma lamúria, torna-se afirmação alegre da nossa condição. Somente errando é que se aprende. Mas o poeta diz mais: é o próprio erro que deve aprender o seu lugar nessa história, na história do nosso aprendizado.

Escrever para entender sem entender

O lugar-comum, as rotinas mentais, as frases insossas, o comodismo intelectual, a burocracia paralisante, as disciplinas disciplinadoras, as avaliações inválidas, o medo de falhar, o cotidiano entediante, a convivência banal, a informação rasa, tudo isso incomoda o poeta. O poeta, esse mestre do surpreendente, quer uma outra escola. Uma escola poética. Nessa escola impossível (mas necessária), o poeta entende o ininteligível, sem desmanchar o mistério:

entendo
mas não entendo
o que estou entendendo
(La vie en close)

O que o poeta não entende e ao mesmo tempo entende? A resposta não poderia ser mais simples e mais generosa: tudo. Tudo: a vida e a morte. Escrever é entender com radicalidade que nada é tão fácil de entender. E daí? O escritor encontra na criação, na literatura, sua razão de viver e morrer, sem esperar respostas apaziguadoras, definitivas:

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
u escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
(Distraídos venceremos, 1987)

Como o peixe e a aranha fazem o que têm de fazer, sobrevivendo como peixe e como aranha, sem mais, igualmente o poeta, distraído com os versos que escreve, desprende-se das explicações que pouco explicam. Escreve apenas, e isso não é pouco. E o poeta ganha tempo de vida ao escolher essa vida... Escrevendo por opção (ou por não ter outra opção), tece suas teias e com suas palavras beija e morde o que vê.
O escrever como ato vital, sem finalidades redacionais. Sem um porquê. Sem esperar prêmios ou reprovações. Ou melhor, o porquê e o prêmio estão no próprio ato, as letras no papel brilham como estrelas, sem se preocuparem com mais nada.

Literatura, guerra e amor

Em Guerra dentro da gente (1988), há um episódio significativo. O herói (herói é quem sempre aprende) chama-se Baita. Ele se encontra na Grande Cidade. Candidatou-se a ser um dos guardas do Grande Rei. Baita nunca brigou com ninguém... só consigo mesmo. E certa noite, um dos guardas que treinavam os candidatos tentou intimidá-lo:

Baita levantou, ergueu a cabeça e encarou o homenzarrão que veio cambaleando e gritando outros insultos.O brutamontes parou a dois passos dele e continuou xingando a mãe, o pai, a família, a terra de Baita."Palavras", pensou. "São apenas palavras. Insultos são apenas palavras."Mas o gigante veio para cima dele, tentando empurrá-lo para dentro da fogueira. Baita só girou o corpo, sem encostar a mão no brutamontes, que com seu próprio impulso caiu dentro da fogueira.Em um instante, sua roupa, sua barba e seus cabelos pegaram fogo; ele rolou gritando, levantou, caiu, tentou levantar, caiu de novo e não levantou mais.

Insultos não são palavras, na verdade. São menos do que isso. O jovem Baita perderia a guerra interior se aceitasse brigar com o gigante, se não agisse contra o impulso natural. As palavras que surgem na mente de Baita são as verdadeiras palavras. Baita não precisou xingar o agressor. Simplesmente soube desviar-se, em silêncio, no minuto preciso. Aprendera uma lição importante. Não se deixaria empurrar para o fogo da ira e do ódio, que já queimava por dentro o brutamontes.O "amor-antídoto", dizia Leminski na apresentação de Guerra dentro da gente, "é um milagre cada vez mais raro". Mas se toda palavra é um pequeno gesto de amor, se escrever é entregar-se apaixonadamente à criação de palavras que brilham, a literatura vale por si mesma. E torna-se, por sua própria força, ocasião de aprendizado.
A luta com as palavras é uma guerra interior, que abre possibilidades para pensar além do já pensado, entender além do entendimento, sentir novos sentidos. Uma das maiores carências da sala de aula consiste em não experimentarmos, professores e alunos, a força da leitura educadora. A literatura reduzida à mera obrigação é batalha perdida para todos nós.

Gabriel Perissé é doutor em filosofia da educação (USP) e professor do Programa de mestrado/doutorado da Universidade Nove de Julho (SP); www.perisse.com.br